21.1.08

És um louco, meu amigo, sempre foste. É que não te lembras nunca das esquinas passadas, e nem precisas que fique eu a remoer lembrança antiga daquelas que, esforçando, decerto lembras. O caso é que tens que parar com isso, Álvaro: já é tempo. Disseste-me observar as vagas, trate então de aprender com elas. Acaso esqueceste nosso tempo de escola? Todos aqueles devaneios de futuro e as leituras de um Hesse, um Pessoa, um José, nós sempre a tentar-nos fortes, e agora de novo inventas como tivesses 15 anos.
Coragem, homem! A vida não é só isso e nem pode sê-lo. Levanta esse corpo e sai dessas mesmas paragens. Se não te bastam as vagas, vai ao Tejo, muda os ares, vem ter comigo em nossa casa, Marta ficará feliz em te rever. Lembro-te que tua afilhada já fez 2 anos e não vieste à festa da pequena, que ficou muito sentida. Cecília te adora e manda abraços.
Presta bastante atenção, amigo: ou tu paras de nonas sinfonias ou viras um ébrio de uma vez por todas. Essa criatura, se é que existe e não é outra de tuas fantasias, não merece esse teu esmorecer.
Faz ouvir a voz da prudência é recomeça-te os caminhos diários, sem passar pelas ruas escusas, faz isso, Álvaro.

Forte abraço,

João.



- ouvindo: O silêncio das estrelas, Lenine.

19.1.08

desatino

Que loucura gigantesca eu ando sendo... Não podes sequer imaginar. Todos os dias a vagar por essas ruas, na busca incessante por aquela janela onde a vi uma vez, uma única vez, e jamais saiu de mim a dar-me espaços de consciência de mim mesmo sem si, aquele corpo, aquela voz forte e fugidia a um só tempo. Há meses persigo, há meses não sou eu, há meses sequer coisa nenhuma: sou só um vago, um vago entre nada e coisa alguma, na procura por aquela de quem sequer sei o nome.
Ouça, ouça aqui a nona sinfonia, e perceba que é aqui, é aqui que eu me perco, e ela nada. Ando a subir e a descer tantas ladeiras coloridas que a mim já não tem cor nenhuma. Invento assunto com os passantes, a dar ousadia às senhoras que passam num cortejo sabe Deus com quem, passei a tomar os desjejuns na tabacaria da Rua do Passo, na esperança desesperada de que talvez pudesse a ninfa por lá passar, quem sabe...
Desde aquela terça-feira inexplicável, em saindo do trabalho lendo-me os últimos papéis por assinar, aquele dia em que tropecei na pedra em falso e tive de abaixar-me por amarrar os sapatos. Foi no levantar-me desse gesto que vi, por uma janela do outro lado da rua, aquela bela a ler preguiçosamente na varanda. A trança volumosa caindo-lhe pelos ombros e o olhar compenetrado, tão sublime, que cautelosamente atravessei a rua, e fiquei embaixo daquela janela a fingir ler-me os papéis. Ouvia, então, a leitura baixa daquela moça, ouvia, ouvia sim os sons melodiosos das palavras sem entender palavra alguma, eram música: eram música...
As músicas, meu amigo, em meus ouvidos estão a deixar-me louco, fora de fuso, perdido, cego, sentido algum há ainda. E o trabalho e a família e os amigos, me perguntas, ora, que dúvida...! Nada eu vejo, nada eu sou, sou só essa espera, todos os dias, naquelas esquinas, naquelas portas.
E assim passaram semanas, e continuam a passar. Permaneço no meu banco, esquerdo do lado da praça Vinte e dois, moro numa casa de frente para o mar, vejo passarem as vagas todas as horas do dia, e nada, nada da princesa fugidia. Amigo, me faça um favor, não contes a ninguém onde moro, só a ela, se a ti vier perguntar.
Ouça, ouça a nona sinfonia, e depois me diga como fazer pra parar de vê-la, que já não posso fechar os olhos sem me morrer de agonia.

Do teu

Álvaro

.

23.12.07

outro castelo

-meu reino por um sorriso, senhora;
-ora, quanta ousadia
-em te querer sorrindo?
- o ousar tratar-me por tu
- dize então como queres que chame, pois não?
- não, quero me chame não, faça o favor
- que maldade, senhorita, se apenas desejo bom dia
- desejado? tenha-o o senhor também

e assim você perde o príncipe, princesa.
quantas músicas caindo pelos dedos,
em teus segredos todos ficando guardados
no canto do quarto,

um dia explodes.
de novo?

22.12.07

ahm?

Eu lá sei de nada, José.
Devia saber?


Nuvens?
que nuvens?
o sol se põe todos os dias dentro de si
pra nascer, amanhã, dentro de mim.


Vi nada, José
Na hora eu fugi da foto
tranquei as chaves no carro

abstração é essa hora, cinco da tarde não me entra,
convenço-me de silêncios e acabou-se

e inda me pedes coerência?
Haja santa
-incrivelmente-
paciência.

18.12.07

Dos súbitos

- escrito assim, subitamente, sem pretensões.




Nas curvas da estrada de mim,
era assim como um silêncio em si bemol, dá pra entender?
E eu abri a mochila, tirei a gaita.
Tirei as fotos, tirei os sons,
coloquei duas flores,
três amores,

e eu,
ali de volta.

Na outra esquina, vai saber
é como me encontrar outra vez

ou a si, de outro ângulo."

11.12.07

Hora íntima.

[vontade de encenar esse poema. se eu tivesse algum talento =P ]

Quem pagará o enterro e as flores
Se eu me morrer de amores?
Quem, dentre amigos, tão amigo
Para estar no caixão comigo?
Quem, em meio ao funeral
Dirá de mim: – Nunca fez mal...
Quem, bêbedo, chorará em voz alta
De não me ter trazido nada?
Quem virá despetalar pétalas
No meu túmulo de poeta?
Quem jogará timidamente
Na terra um grão de semente?
Quem elevará o olhar covarde
Até a estrela da tarde?
Quem me dirá palavras mágicas
Capazes de empalidecer o mármore?
Quem, oculta em véus escuros
Se crucificará nos muros?
Quem, macerada de desgosto
Sorrirá: – Rei morto, rei posto...
Quantas, debruçadas sobre o báratro
Sentirão as dores do parto?
Qual a que, branca de receio
Tocará o botão do seio?
Quem, louca, se jogará de bruços
A soluçar tantos soluços
Que há de despertar receios?
Quantos, os maxilares contraídos
O sangue a pulsar nas cicatrizes
Dirão: – Foi um doido amigo...
Quem, criança, olhando a terra
Ao ver movimentar-se um verme
Observará um ar de critério?
Quem, em circunstância oficial
Há de propor meu pedestal?
Quais os que, vindos da montanha
Terão circunspecção tamanha
Que eu hei de rir branco de cal?
Qual a que, o rosto sulcado de vento
Lançará um punhado de sal
Na minha cova de cimento?
Quem cantará canções de amigo
No dia do meu funeral?
Qual a que não estará presente
Por motivo circunstancial?
Quem cravará no seio duro
Uma lâmina enferrujada?
Quem, em seu verbo inconsútil
Há de orar: – Deus o tenha em sua guarda.
Qual o amigo que a sós consigo
Pensará: – Não há de ser nada...
Quem será a estranha figura
A um tronco de árvore encostada
Com um olhar frio e um ar de dúvida?
Quem se abraçará comigo
Que terá de ser arrancada?
Quem vai pagar o enterro e as flores
Se eu me morrer de amores?


[Vinicius de Moraes]




A Hilda pegou também :P

9.12.07

Encontrei a velha carta escondida. Mal escondida, decerto, que lembro tê-la escondido pra ser ele a achar, quando voltasse...Não voltou.
Longos minutos olhando, sem ter coragem, melhor nem ler. Não leio.
Faço pior: pego o telefone.
Ligo?

ô,babe, faça isso não, vai doer.

e escondo de novo, até o silêncio das cartas manchadas,
marcadas,
cindidas,

direi sim quando for a hora.
Agora?

O destino brinca, senhores, mas hoje ele não me pega.

23.6.07

Literatura erótica?!

I
Toma-me. A tua boca de linho sobre a minha boca
Austera. Toma-me AGORA, ANTES
Antes que a carnadura se desfaça em sangue, antes
Da morte, amor, da minha morte, toma-me
Crava a tua mão, respira meu sopro, deglute
Em cadência minha escura agonia.

Tempo do corpo este tempo, da fome
Do de dentro. Corpo se conhecendo, lento,
Um sol de diamante alimentando o ventre,
O leite da tua carne, a minha
Fugidia.
E sobre nós este tempo futuro urdindo
Urdindo a grande teia. Sobre nós a vida
A vida se derramando. Cíclica. Escorrendo.

Te descobres vivo sob um jogo novo.
Te ordenas. E eu deliquescida: amor, amor,
Antes do muro, antes da terra, devo
Devo gritar a minha palavra, uma encantada
Ilharga
Na cálida textura de um rochedo. Devo gritar
Digo para mim mesma. Mas ao teu lado me estendo
Imensa. De púrpura. De prata. De delicadeza.
[Hilda Hilst]

Tenho conversado ardentemente sobre o tema com os amigos no Por Mais Leitura (pra quem não sabe o tema do mês é Literatura e Sexo), e ardentemente discordamos de várias das arestas do tema. Felizmente sempre tem um ponto de intercessão, e o ponto dialético é a Hilda Hilst :P
Pra quem não leu, tem que ler. e quem já leu, ler mais, porque a mulher tem das maiores bibliografias - e é realmente a minha preferida e uma espécie de ponte entre o dito "lírico" e o "erótico", apesar de eu mesma não gostar de fazer essa secção.

Aqui um texto já escrito pro blog do PML, sobre isso, porque permanece o tema, e eu gosto muito dessas polêmicas:

A Mulher para além do Sexo.
Que "Mulher", vocês me perguntariam, e eu diria: todas, talvez. Mas escolhi aqui uma, a minha preferida, vamos dizer, e preferida também porque muito me representa:Hilda Hilst aqui já bem apresentada pelo Ary (ver post "O caderno rosa de Lori Lamby"), mas que continua sendo minha amiga de cabeceira, sobretudo e sobre todos.Mas por quê, então, esse título de "a Mulher para além do Sexo"? Nada mais simbólico nessa temática de Literatura e Sexo, permeando entrementes o Erotismo, nada mais simbólico do que falar de mulher, e com aquela que, na minha opinião, é a Mulher das mulheres.Falando especificamente dela, a Hilda, que foi durante toda a vida vista como uma "escritora erótica", e nada que a irritasse mais. Não por renegar o erotismo de seus versos, mas por achar esse rótulo demais limitado - e, no fim das contas, O QUE É LITERATURA ERÓTICA?
Devo dizer que sou uma leiga. E, aliás, toda vez que leio algo que pra mim soa erótico explicíto, de cara já desgosto, e não é por pudor excessivo: é que aquele tipo de palavras (senhor, nada pior que uma "buceta" no meio do parágrafo :P), aquela linguagem bordelística, sinceramente em nada me atrai. E aí me coloco não mais como Marília, mas como mulher lendo essas linhas (e vamos abstrair de coisas como "pudor" ou "criação paternalista", sim?): isso sinceramente não me toca. E a palavra no meio do texto podia ser pinto, pênis, pau, qualquer coisa, isso nunca me remete sequer a imagens, porque eu pulo essas linhas.E então deixa logo eu dizer: pra mim Literatura e Sexo não é só literatura erótica. E aqui entendamos literatura "erótica" como aquelas coisas em que o sexo está explícito, o ato em si, as terminologias anatômicas, anacrônicas e até vulgares. Eu gosto de ler Hilda Hilst quando ela fala de Sexo. E por quê? Porque ela sabe falar. Não vou aqui defender que ela saiba falar PORQUE é mulher. Mas de todas as coisas no mundo que eu leio sobre Sexo, sempre me atraem mais as escritas por mulheres. Tem o fator também de que a maioria dos autores conhecidos são realmente homens, inclusive nessa temática, e sempre o sexo, o ato, o coito, fica descrito pelas mãos de um homem: a visão da mulher, também, pelos olhos de um homem. E ouso pensar que é porque SOU mulher, é claro. Minha identificação vai por quem me representa: e olhe que já vi muitos autores homens representarem muito bem o universo feminino - mas sem dúvidas ninguém jamais bateu a Hilda.
E como lá em cima postei um tipo de poema, dos dela, aqui vai outro bem diverso.
Digam aí. Se fosse pra escolher um poema pra ler de novo, qual seria? :)
O de cima ou esse último?
"Que este amor não me cegue nem me siga.
E de mim mesma nunca se aperceba.
Que me exclua do estar sendo perseguida
E do tormento
De só por ele me saber estar sendo.
Que o olhar não se perca nas tulipas
Pois formas tão perfeitas de beleza
Vêm do fulgor das trevas.
E o meu Senhor habita o rutilante escuro
De um suposto de heras em alto muro.
Que este amor só me faça descontente
E farta de fadigas. E de fragilidades tantas
Eu me faça pequena. E diminuta e tenra
Como só soem ser aranhas e formigas.
Que este amor só me veja de partida."
?

1.6.07

Na cantina - parte 1.

- Olhe em volta.
Ele o diz, e não é um sonho só. Sonho que se sonha só, eu sei, é sonho,mas o sonho junto... já nem sei.
- Olhe em volta, ele continua.
E o que ele quis dizer, perfeitamente, eu o sabia, mas não ia dizer, deixei-o a falar. e falar e falar. Sobre o desespero do mundo, o agônico do homem, a cultura quase perdida,os problemas sociais: tudo isso, menina, é apenas a ponta.Ele falava como quem não dá fim. Nem as palavras nem a si, tudo fica suspenso, menina,veja você que o mundo, ah, o mundo, "o mundo não vale o mundo, meu bem".Saberia ele estar a citar Drummond? Falava muito dos alemães.

O que eu sabia, devo dizer, é que por isso senti eu também saber, mas já não mais do mesmo jeito.Aquela inquietude a sobrevir da calmaria, quem já não havia, por segundos,angustiado a vida inteira?Nietzche tem lá sua razão, Thomas Mann também, e sobretudo Hermann Hesse, mas eu ainda fico com o Drummond e o velho estar-no-mundo.

O que dói, meu amigo, é o estar-no-mundo.E aquela coerência de que eu te falava, e tu me dizias um conceito outro a dizer a mesma coisa,é isso que eu vejo olhando em volta, a exata falta dela.

Dói quem não tem sequer a coerência. Não sei se aos 19 te posso dizer que essa é a necessidade básica, mas te digo com tranquilidade que nunca vi ninguém estarem paz sem ter aquela. A bendita (ou maldita, tu bem falas) coerência.
Dou-te apenas um outro conselho ao vento, muito embora saibas que não virás por cáa ler-me: as teorias, meu amigo, de nada valem sem a prática. Não é preciso ler Kant pra saber. ;)

31.5.07

[poema di minuto]

[nascido após ler algo muito bonito na casa da Antropóloga em marte ;) meus cumprimentos agradecidos por ter-me nascido o poema hehehe ingênuo, porém sincero, de uma lembrança há muito descansada =]



eu não era nada, não.
e ainda digo que não queria ser nada.
vês que hoje algo sou, por obra tua, obra minha e do destino
e ainda eras um menino quando tudo era começo.
hoje eu meio, tu nem sei.

mas sabes que aquele átimo no interlúdio de nós mesmos
aquele vil segundo em que tanto nos tocamos e nos fomos
embora de cada um de nós:
naquele tão momento é que eu começo,
feliz ou não, a ser o meu início, meu idílio, meu senão.

senão nada disso houvera sido, ex-amor.

e aquele que eu dizia ex-amor, hoje que mais posso ver
senão infindo, indizível indelével, vez que jamais me deixaria?
não me deixaria, querido amigo,
porque eu jamais te expulsaria

e tu jamais sem mim vivia.

13.5.07

Insônia.

Percebeu que estava sentado na mesa, mas não era isso o que queria. Queria talvez ir embora, esquecer-se dos gritos em volta, apagar os choros calados.

Queria talvez estar ébrio, ébrio e bem longe. Sem a raiva das injúrias ouvidas, sem o desejo de não-ser. Mas não era tão simples. Viver não era tão simples. Infelizmente, ele sabia. Sabia, decerto, de coisas demais e pessoas de menos. Ou seria o contrário? Ébrio, ébrio e bem longe.
O ruído baixo do vento a sussurrar na janela irritava-o, tanto quanto as conversas estapafúrdias na sala. Tudo parecendo irreal, sem que soubesse explicar. No fim, podia ser apenas real o suficiente pra sufocar bons julgamentos.
E é claro que a realidade aplaca os sentidos e obstrui um tanto a razão. Ainda que pensamentos sensatos não se devam de todo à abstração, dificilmente nasceriam em uma calçada movimentada repleta de rostos sem dono e de buzinas. Os grandes filósofos deviam (devem?) ser aqueles que, mesmo na realidade, guardavam para si os sentidos e a própria sensatez.
Sensatez no abstrato. Pensava nisso de vez em quando, mas os burburinhos do tudo e do nada acabavam-lhe com a paciência. Um contrasenso, era isso o que tudo era.
Curioso era que hoje tivesse compromissos. Sim, tinha. No entanto, sem fixos horários, deitara-se e lera um seu mestre. O acaso - do ocaso - não deixara que avançasse as páginas. Relutou, resignou, rabiscou.
Restrito e rendido, calou-se ao escrever. E o tempo, esse passava só. Ficava ele, ficavam nós. Queria apenas estar bem longe, sem mais saber seu nome e sem ter hora pra voltar. Podia? Sabia lá, talvez um dia tentasse.
Escrevia como quem passa, como insistia o Pessoa, e, logo em seguida, já era o que fica. Ficava onde - é que ele não sabia. Os gritos ainda ecoavam, apesar de todos já idos longe, gritos&gritos, uma estupidez, sempre pensou, por que não podiam resolver as mediocridades com olhares? Quiçá desenhos. Inventassem um modo qualquer, contanto que outro, algum que não o deixasse louco, que não o trancasse no quarto, esse cessar de mundo. Terá o mundo cessado? Ou foi apenas um calar momentâneo?
As paredes são como ele. Às vezes as paredes o comem. Verdade maior, no entanto, é dizer que ele é que come: come as paredes, o tempo, os livros e até a si, autofágico, verborrágico, mas sobretudo sozinho. Devia ter um sobretudo. Pra quê?! Pra morrer de calor mais ainda. Pensa consigo, rindo um horror, que até as ironias são amarelas. Acha que o amarelo o persegue e desiste de pensar nisso, dá um terror de dentro, e chega, chega tudo, passa por eternos oscilares. Quente, suor muito. “Mamãe dizia que era o calor”.
Transpira-se muito nessa ilha. Mas não era floresta? Já não sabe onde mora. Não sabe. E lá se vão longos minutos de silêncio interno, um desejo imenso de sair daquilo que nem sabe nomear, e uma inércia talvez maior de sequer mover-se. Pra que mover-se, se talvez os gritos voltem?
Achava que se perdia e parava ao continuar. Que tudo à sua volta acabava por diluí-lo, mas era hora. Hora de não saber. Hora de se arrumar, hora de ir embora.
Talvez fosse mesmo apenas mais um. Talvez isso sequer importasse. O tempo, esse sim, sempre passava. Não devia ele, tão bobo em seus papéis, parar? Parar pra onde, parar pra quê? Tolice, devia deixar de ser tolo.
O relógio bate. Que horas?! “Tantas...” Havia de ser mais forte, conciso e espontâneo. Duvidavam? Veriam. O dia hoje será bom, diz consigo, será bom e eu serei eu mesmo.
Talvez seja hoje a coroação. “Eu, rei de mim?” Engraçado.

6.5.07

Um jazz - ao sr. Bechet tocando.

Deslizou passo a passo na calçada ao som do jazz, sabia que devia chegar ao teatro. Haviam marcado, o show era cedo e dessa vez tão, mas tão importante, que tivera medo. Arrumou o violoncelo, afinado a custo, e não resistiu a uns goles e copos: bebeu pra relaxar e acabou indo naquele estado. Deslizando passo a passo, sabendo já de antemão do atraso óbvio, talvez pusesse tudo a perder. Mas não: ligaria e diria “façam sem mim”. Claro. E assim perdia o emprego.
Nervoso, bebia mais. E o jazz, meu Deus, o jazz era o delírio, queria tocar a peça o quanto antes, mas e se errasse algo? Estariam todos lá. Pensava, no entanto, que a luz, aquela luz, sempre o cegava. Que diferença, não via ninguém, e aí tinha um risco: se perdesse a marcação, não veria mais nada, nenhum dos companheiros. Em seguida, pensava que bobagem, “um músico experiente, tantos espetáculos, ensaios todos os dias, não tem nada a dar errado”.
E deslizava uns minutos confiante, até perceber que não sabia mais aonde ia. A mulher, antes de deixá-lo noite passada, sentenciara exatamente isso, que ele, o grande músico, já não sabia mais. Aonde ia, o que queria, o que dizer. Frases cruéis ela dissera, ele fingindo não ouvir. Antes ainda de fechar a porta, ela arriscara uma frase de efeito (e, ele observou, “mais sem jeito que a porta”),
- Aprenda a perder pra não perder a si.
Continuou fingindo até dormir. E dormiu sem sonhos.
Acordou sem a mulher do lado e, riu, “sem a mulher, mas com uma senhora ressaca”. Como de hábito, ainda sem comer, foi tocar. Sabia que a mulher (como a chamaria agora? Ex?) tinha razão: ele emagrecia progressivamente e só as olheiras prosperavam. Nem a barba lhe crescia mais, os cabelos caíam ralos. Apesar de bom músico, todos sabiam, não recebia mais propostas nem idéias bonitas dos amigos. Eles tinham medo das constantes neuroses do artista.
Neurose, repetia, fora isso o que dissera a analista. E grande coisa, pensava, naquela roupa sufocada, louca era ela, julgando por detrás dos oclinhos meio mundo a desocupada... E fora embora, ignorando mulher, analista, remédios e recomendações, tinha mesmo um grande espetáculo a montar. Tinha? Há quase um ano sem apresentar-se, mas ninguém precisava saber.
Pensava nisso esparsamente ao deslizar. Vontade de deslizar-lhe os dedos pelas cordas que nem Charlie Parker domava o sopro, ah, o Bird! Quem dera ter tocado com ele, sonho antigo. “Morreu dois anos antes de eu nascer, devia ter me esperado”.
Bessie! Meu Deus, estava ficando louco? Tocavam Bessie na esquina, então o mundo tinha jeito (e o som da esquina, num posto, era qualquer coisa menos jazz). Um mendigo pediu dinheiro, ele sorriu e, estando tonto, sentou-se de qualquer jeito, tomando só o cuidado com o querido amigo – a caixa tinha que estar intacta, guardava-lhe a alma.
- Você ouve, ouve?
O mendigo não responde, se não tem dinheiro nem comida, ele pensa, “sai do meu caminho, ô seu doido”. Doido, pensa ainda, pra estar de terno e sentado na lama. E, em seguida, “se é doido...” e já calcula as vantagens.
- Escuta, você sabe onde fica aquele teatro?
- Tem teatro aqui não, meu chapa.
- Não?!
Mas ele já sabia. Não queria mais chegar, queria só acompanhar a Bessie. Tonto, sim; doido, não. Se pensavam que ele não podia, veriam já. Ele, o grande, levantando da calçada e subindo ao palco.
- Ora vejam. Nunca vi público maior, perdi até o medo.

O mendigo ria do homem falando sozinho, ainda mais que descobrira com ele uma garrafa e aquela já era sua – ao menos isso.E o senhor músico, diante do público, sacou da sua arma, ajeitou a flor na lapela, um “Boa noite, Bessie”, pôs-se na melhor posição que pôde e tocou finalmente a sua música. Sua última música.

25.4.07

Entre os breves espaços do tempo não há
ninguém
ousando viver o tempo
seguindo ao som do vento
sabendo que, a todo tempo,
o tempo pode acabar.

na sua janela não era nada, meu bem
apenas o nosso espelho,
partido talvez no meio
- "parto, já tendo me partido"

é aí que te digo
da brevidade do tempo
necessidade de anseio
viver do começo ao meio
- "e o final que venha sozinho",

vez que os breves espaços de vento,
confesso

perdi no mei do caminho.

.

19.4.07

Cálice de curta noite.

“Sorver de vários goles um grande cálice de mim. Ser, em vivas gotas, a não-necessidade de ser nada: ser E não-ser, eis a questão. Sinceramente eu, sem ser somente, jamais ausente, sem lembranças ou semente de passado.
Outra vez o começar tudo de velho – te renego, te renego, te renego. Três vezes, que são seis. Vocês, todos vocês, esparsas memórias de um eu-triste, o que eu sei é que existe, existe Eu. E não assim, juro, sem um fim, sou em mim o que nem posso.
Me observo e me disfarço, desfaço percebendo o desapercebido do espelho. Aqui, de meu lugar, já fui você. E também aquele. Quer me fazer um favor? Preciso de uma massagem. Ah, malícia, eu, logo EU, tu dizes? Gosto é de quebrar regra. Sobretudo as convenções. Sobrenada as omissões. Ouviste?
Por certo, és tu mesmo, dessa mesa, que me olhas. Sobretudo as omissões. Me conta o que queres, sem que omitas nada, talvez eu não hesite em ser tua. E não porque eu valha muito – é de tua incapacidade. Que é a minha, que é a deles.
Mas, como eu dizia, sorver de vários goles um grande cálice de mim. Queres um pouco? És um louco, um SÓBRIO. Pobre homem. Já pensaste que podes estar morto? Mor-to. Bem muito louco, não pouco, será que pensas. Diria Não pensa, diria Me tenta. Decerto sou orgulhosa, mas queres saber?
Gosto de rosas. Brancas.
Gosto de ouvir, mas hoje não quero uma palavra tua. Só me toque de aviso prévio, quero dançar. Pois não danças? Que esperança, então! Até, rapaz.
E também fui o rapaz na mesa. O homem na mesa. O vazio na mesa. A mesa. A. Fui céu de estrelas e sol nascendo, fui menina brincando, mulher resolvendo. Resolver? Resolver é uma maçada. Palhaçada de mim de outros tempos, que invento esse meu. O que importa? Nem eu nem ninguém.
A vida, a vida é que importa.
Honro a vida com minhas palavras?! Com meu sangue. Com meu riso e meu pranto, ah, o encanto da vida. Alguém me tire pra dançar, que já devaneio, hum? Não, não você.
Ah, que bom encontrar você, amigos andam difíceis por aqui. Como vai? Perdeu João, como assim perdeu? Ah, procuremos, pois. Vejo que está triste, não fique, mais tarde, bem tarde, voltamos pra casa e contamos pros filhos. E netos? E tudo.
Sim, confesso, foi bem nessa música, dói-me como a falta de existir. Nem quero que eu me prove que eu não existo. Que eu não vivo tanto e nem omito o tempo inteiro. Omito, logo existo! Ah, Descartes, me diga dessa.
Olha, moça, não achamos João, mas eu juro que eu preciso dançar. Luz, som, câmera, ação ou não: preciso. Vou. Você vem? Te ligo, então. Ah, sim, até.
Eu, plena. De quê? De Vida. De mim.
Sorver de vários goles um grande cálice. ”

3.4.07

Fevereiro, quatro.

Fevereiro, quatro.

O bom é que a vida não pare. O bom é que a vida não desça. Vindo o que vier, a vida dança, a vida cala, a vida grita. Estupidez achar que pare por um choro: a vida é um coro que não pára de pintar.
De cair, de rodar. É o menino que pisa na bola e se acaba de rir, é a moça que chora dos pulsos cortados sem se cortar. É o tempo que anda. E o que não anda, também. O pulsar só pulsa, o sentir só sente e, se não, se mente, mente-se, cabou.
Pensei, pensei num pente. E aí o dente e aí a morte. E aí a vida e aí o sábado. Prosados versos, prezados versos, versejados densos, e, se minto, tento esquecer do medo. Mas, segredo, não conte a ninguém, por ora vou bem, e o menino corre.

29.3.07

Um solo de gaita.

.


O céu de estanho lá em cima
e na estrada uns pés de caminho.
No interstício és a gaita
cantada de verbos alheios,
sorrateiro soprando versos
bela e velha mochila nas costas,
por enquanto não somos nada
além de cinzas sozinhos.
Mas é da cinza de tanto tempo
que se segue os passos ausentes
achando toda a resposta

naquele solo de gaita.

Por mais que ninguém dissesse
e caronas fossem difíceis
os carros sempre passavam
por volta daquelas montanhas.
Insistia dizer que tuas
tuas montanhas tantas
tua mochila nas costas
e teu destino nos pés.

Teu instrumento brinca
enquanto segues olhando
o vento batendo nas costas
e fingindo não ser contigo.
Espanta é que seja tanto
que seja verso e seja amigo
que seja solo e seja gaita,
e ainda não tenha um próprio caminho.

há de ser feito conforme os pés,
é assim que sempre respondes
à pergunta que tu mesmo começas

naquele solo de gaita.



Uns verbos alheios na carona que achaste
de ontem e sempre em diante
pegas a tua mochila, debaixo do céu de caminho
e da estrada de estanho.

Até quando seremos seguindo?
vai sabendo tocando a gaita,
que é bem na próxima nota
que se lhe revela o destino.
.

21.3.07

Carta X.

.

Acordo e não sei se foi sonho. Bom dia, A, que renasce, renasce pessoa outra ou deliro eu? Minhas mãos brincando teus cabelos; o sorriso que me deste; o “bem muito” que disseste ao entrar sala adentro pra abraçar-me. Naquele instante, A, amei-te a vida inteira.

Carta em mãos e tu nos olhos de verdade, voltei aos tempos de crer e acreditar o tempo inteiro em ter-te apenas por gostar. Deixa-me confessar? Tão lindo te ver dormir...E esperar pelo teu sorrir para ir-me lá, um sorrir que conheço há sempre e só agora posso tocar. Entendes?

Desfaço-me em bobices porque também renasço eu. Já não és A., és nome outro, aliás nome algum, não vou deixar que. Nada de conceitos. Quando me chamares, saberei. Será que a recíproca? Preciso ver-te. E te vi todos os dias de tão longe, agora preciso outro abraço apertado sem ser repetido, tenho um ciúme bobo que se mostra em tudo, reparaste?

Sigo-te com os olhos a todo recanto, quase chego a pedir tanto que me vejas, mas, quando vês, temo. E por que temo? Será em meus olhos digo tudo. Tudo?
Mudei de cidade e não mudei de mim. – Foi? Vivo de paixões e que absurda essa. Sonhei ou foi verdade? Em momento algum fui pedir passado e agora me vem o novo, vem de novo e tenho medo de doer.

Mas vou viver, posso anotar.

Saudades tuas, A... Conta-me um pouco? De novo sobre teus casos, cores e livros. Mostra-me os fatos e ri de meu riso, mas seja comigo, se posso pedir.
Acredito, acredito, acredito.

Recebeu mesmo aquela carta?


Sorriso,
S.

7.3.07

entre umas doidas e outras

"ô marília
acho que as drogas que tu tem tomado
são verbais"




ps: por mais leitura 15h no dragão.

13.2.07

Breve carta de um até breve, numa estação;

“A.,

não quero que me perdoes pelo erro não cometi, não quero que me esperes na calçada de um domingo, não quero que sonhes comigo. Não quero nada disso. Nem perfeição nem negligência. Quero uma coisa somente.
Estejas bem e não-tão diferente, na mesma casa, talvez mesmo jardim. Mas, sendo de mudar, desejo bons caminhos. Que a janela continue dando pras estrelas mais distantes, que a música vezenquando se alimente. Que as aulas estejam sendo boas; adoráveis os livros, singulares as pessoas, em ordem os discos. Ou desordem, se quiseres.
Vai bem a família? Lembro-me do verão passado, de Cecília, de Drummond. Lembro-me de filmes antigos, mas sobretudo os vindouros, que têm gosto de morangos (morangos mofados?). lembro de um teu sorriso, aquele que na alma me gravaste e, decerto, não te lembras nem desejas. Compreendo – mas lembro.
Sorrio ao pensar que essa carta é um silêncio enrustido. E o que não houvera sido, “desde tempos imemoriais”? De silêncio em silêncio vive o homem, ainda que eu discorde. Hoje desfaço a coerência, sem disfarces nem ausência: tento. Percebes?
Olha, agora me vem à cabeça aquela cena, daquele banco, daquele dia, ah, daquele dia. Talvez nem lembres, aliás, bem certo, mas não tem importância, já disse não ser o que quero. Tens visto ainda os meninos, ido muito ao nosso lugar? Há tempos não vou mais. Não por não sentir falta, mais por falta de tempo.
E se o tempo? nem sabes... Sonhei contigo e até, muitas vezes, escrevi cartas, mas o mar era bravio: não chegaria.
Escuta, escrevo estas linhas em um banco de estação, um copo na mão – nem sei o que bebo, parto bem breve. Compromissos, profissão, pelo sim e pelo não, aceitei uma proposta. Vou como costumo ir, bem sabes, com a blusa aberta e uma rosa em botão, que esperar me estorva.
Falar em esperar, esse trem que não chega. Mas por certo não é nada, só minha velha mania de chegar cedo. Pois bem, não sei o que te dizer no momento mesmo em que digo, um garoto me sorri. Pede um isqueiro pro pai, uma pena, eu não fumo. O menino se vira e vai embora. Tão estranho, uma tristeza pesada me bateu com o bater daquela porta... Uma lágrima, no agora. Ando assim mesmo tão frágil?
Talvez tenha visto a mim no menino. Ou, o que é mais provável, visto a ti. O sorriso ou o sentir, nem sei. Essa espera me consome, preciso não esperar. Às vezes tenho a impressão de que os minutos matar-me-ão mais cedo que a bebida – grande conclusão, vês, já que não bebo. Decerto sempre supus minha ebriedade, ebriedade da vida que a mim me basta (frase não minha, de Pessoa, diga-se de passagem). E nunca basta.
E me disseram, olha se tem cabimento, que as nuvens não são feitas de algodão (!). Sim, começo a perder o lugar de meu eu, que será que digo sem me saber.
Ah, não te incomodes nem te machuques, pelo amor dos deuses nossos, jamais meu intento. Queria, pudera, diminuir o silêncio. Silêncio aqui dentro, silêncio dessas vozes nas ruas, silêncio nosso de cada dia. Quis, será que entendes, dizer adeus já que abraçar-te não podia.
E mal imaginas o aperto do meu peito ao proferir palavra adeus. Paro pra respirar e olhar o céu, é dia claro, sabes? De um azul até invejável aos melhores vestidos, e aqui sorrio, por que será.
As pessoas andam rápido, fogem de si mesmas? Parece que vão perder o trem (um espasmo, um gargalhar, que humor angustiado esse meu: humor de amor que se perdeu). Pois é como te disse, parece que vão perder o trem, e perdão pela bobagem. É minha maneira de continuar. Esperando?
Começar a pensar que errei a hora.
Olha, andorinhas. Estorninhos e pombos, quantos deles e eu nem notava! Seria bom ter algo a lhes dar. Não tenho, realmente vou de viagem e só levo o chapéu, bagagens me deprimem. Talvez penses no disparate disso tudo, se lá vou morar, mas, ora, já me arranjo, não foi sempre assim?
Vejo rostos conhecidos que nunca conheci – nem irei conhecer. Ah, sim, minto! Trouxe um livro, poemas. Não, não escolhi, foi o primeiro, o que vi sobre a cama. E adivinha. Era Hilda, que profético. Lembras dessa palavra? Tão vivaz a infância. Prefiro crer que eu só continuo. Jamais em pureza, mas em tentar.
Sim, e se alguma vez me magoaste, ah, sem hipocrisias, te perdôo. Não por bondade, mas e mais por precisar. Porque amo. Porque só assim posso. Continuar? Se às vezes te odiei por quase mais que segundos, tanto mais te amei ao amanhecer. Não levo mágoa, levo dor. Não são iguais, digo-te, e precisamente sei que sabes, mas quis repeti-lo. De ti, levo as tardes. E as estrelas e as cartas. Ah, pois é, outro esquecimento, mas dessa vez não uma mentira, esqueci mesmo:
As tuas cartas. Ficaram, lembro, na mesa da cozinha, quando eu relia ao tomar café. Não pude o café, não pude as cartas; saí e esqueci-me de voltar.
Não, A., não me esqueci de coisa alguma. E, se o tiver feito, foi a mim: esqueci-me de mim ao acordar de um grande sonho. Outra coisa – o que tinha de entregar-te dei ao nosso amigo. Se as quiseres, ele há de dar-te.
Por favor, não penses nunca que eu não quis. Ou, muito menos, que te quero mal. Jamais houve, e aqui te juro, quem eu quisesse mais. Tampouco pra ser meu, o bastante pra cuidar. Ontem assisti a uma peça e quase te chamei. Mas, depois de tanto tempo, talvez eu tenha aprendido a respeitar a tua escolha.
E, ora, ora, se não é o meu trem. Parto em quinze minutos. Parto, já tendo me partido. Quase que te digo, mas achei por bem dizê-lo agora.
Cuida-te bem, desejo o de melhor. Para ti e para todos que tu queres. Teus caminhos e escolhas: viva, muito. Não chores (e não creia que aqui a prepotência de crer chorares tu por ir-me embora). Por mim e por ti, não chores. Ainda que às vezes em ti doa, ainda que quase nada eu seja, hás de ter-me sempre ao lado. Se quisesses, num chamado...
Agora vou.
Não tive a coragem de tentar mais uma vez. Talvez porque não houvesse o mais. Minto, esse ainda é um tentar.
Um dia dei-te a alma em um segredo. Hoje dou-te o segredo em minha alma. Deixo-te essa carta embaixo desse banco; o mar era bravio – não chegaria.

Até sempre,
S. ”

1.2.07

Big Field.

É não ter medo. Você entende não ter medo? Ouse a primeira nota, criar harmonia própria, quebrar qualquer seja a corda, e ainda assim o som ser bonito. E sim, o belo existe. Onde, onde, onde é que se esconde o belo, que ninguém consegue dizer. Ou dizem, sem saber.
E é aí a música. Aí o riso, o sorriso, a razão.



Começa assim:

Sol sustenido
(a uma fada =)


ps: ouçam jerry espíndola (falo sério)