28.8.08

Do segundo amor [parte 2]




Se o peixe morre pela boca e é pela boca que você diz ao seu segundo amor, no exato momento em que você percebe que foi fisgado, aquelas palavras um tanto mágicas, trágicas masnomínimoinquietantes "eu te amo", o Medo é aquela criatura que quer te cortar a língua.

Porque, segundo o que consta nos Livros do Destino, da Razão, do Juízo e da Falta de coragem, você bateu a cabeça num poste bem próximo e doeu um bocado. Logo, não vai ser assim na primeira chance de sucesso que você vai doer de novo.

O Medo quer te fazer pensar que é, dizendo, que você morre.Porque, afinal, recorde, o peixe morre pela boca. Mas o que faz de você um peixe, a não ser esses olhos grandes e fundos de quem chorou semanas por um amor perdido? Amores não se perdem.
Ou perdem?
Observe que há mais caminhos do que parece. E as coisas, curiosamente, vão sempre dar em algum outro lugar que você não sabe onde. Você tem Medo?


Ou o Medo tem você?

Porque, se você prestar atenção, há alguém querendo, agora, te chegar.

25.8.08

Intervalo para o EU

[dando uma pausa na série Dos segundos...]


em homenagem aos eueueu, tão conhecidos de todos nós.



EU. Eu sou uma pessoa muito legal, sabe? Eu adoro isso, eu adoro aquilo, eu adoro encontrar você! Pra onde você está indo? Não, eu não posso ir depois, mas agora eu fico com você só por mais umas cinco horinhas... Mas você veja, eu ando TÃO atarefado... A minha vida é uma novela, sabe? Eu já te contei das novidades? Rapaz, fica aí que eu vou te contar meus mais novos sucessos. Nunca vi cara tão talentoso, sortudo e bom com as mulheres do que eu.
Veja você,acho que foi porque eu tive uma educação muito boa. Eu sempre viajei muito, gostei muito de escrever (você já viu meus poemas?), gostei muito de encontrar você, sabe?
Faz muito tempo que não tenho uma conversa tão boa como essa! e calma, calma, já já você me fala de você.

O que você achou do meu carro novo? sabe, foi uma fortuna. Trabalhei muito por ele, e uma parte meu pai me deu também, mas disso ninguém precisa saber. E a minha casa linda e a minha noiva gostosona. Rapaz... Essa mulher na cama neeeem te conto!!!
Ah, esqueci de te contar que tô fazendo mestrado. Ano que vem o doutorado na Alemanha, te disseram? Tô começando a comprar as roupas de frio, tô alugando uns filmes históricos sobre a Alemanha também, não quer ir lá em casa ver comigo não? Vai ser ótimo: só eu e você como nos velhos tempos!

Meu velho, como é bom conversar com você.
E ainda acho que você devia passar lá em casa pra ver meus quadros novos, minhas roupas novas, meus fox terriers novos, minhas medalhas novas e meus cremes anti-rugas. Hoje em dia tem que se ficar perfeito até pras entrevistas de emprego.
Eita!! te disse da minha promoção? Tô é bem.

Mas escuta, tô bem ocupado, tô saindo agora, passa lá em casa mais tarde, viu?
Mas passa mesmo!
Muito bom conversar com você!



- adooooooooro diálogos inexistentes. quem não conhece? :)


Meu Deus, esse povo precisa se tocar...

19.8.08

Do segundo amor.

A pressa que temia fazer perderem-se todos os segundos, minutos e horas acabou levando-lhe à perda do juízo, da lembrança, dos amigos, da esperança e do não.
Ficou-lhe um sim repetido, perdido, sem nexo, aventuras e sexo, repleto de nadas.

Até que, já não procurando, bateu com a testa no próximo poste.


A dor era só a primeira das grandes descobertas.

Dos segundos.

Um certo poeta meio (ou diria meio poeta?), mas não por isso menos instigador, apareceu-me com a pergunta que não quer calar:
- Ô, menina, por quê não mais escreves, pelo menos não no último meio?
- Meio o quê, poeta meio?
- Meio ano, ora pois.

E sempre fui desse jeito, de tantas várias metades, caso então que fiquei a pensar e pensar, e não pela metade, mas digamos minutos inteiros.
E não é que faz mesmo, justamente meio ano, que as linhas se me resolveram ou não resolveram, sei lá, fato é que não mais vieram.
Decerto outros contratempos, inventos da modernidade, ou os arroubos da juventude, os amores pela cidade, a paixão que me consome... Vai saber.
Restou-me uma súbita vontade: escrever dos segundos.

Segundo, ao que me consta, é um termo absolutamente equívoco. Não que ele esteja errado, veja bem, apenas comporta várias análises,várias sombras ou um porquê bastante vário.
Segundo é aquela medida de tempo, basta dizer que é a mera pretensão humana (descabida, por óbvio) de fazer o tempo caber no pulso. Segundo também é aquele que vem depois, muito embora (ora!), o segundo não pare nunca.
Segundo também é o Filho, o arquiduque, o príncipe, aquele seu sucessor. Segundo é aquela palavra que explica o que você quis dizer, quando quer dar ênfase, quando quer buscar quem lhe apóie na explicação.
Segundo, meu filho, no fim das contas, pode ser o que você quiser que seja.

Aí você me pergunta por que eu quis falar disso.
O mais simples, o mais reiterado, o mais batido de todos os assuntos nossos de cada dia: O AMOR! Uma vez li algo bastante interessante, de uma criatura que dizia achar descabido só se falar do primeiro amor. E tinha razão. O primeiro amor tem seus encantos, mas e o segundo amor... não?

Pois contesto! Utilizo as palavras pretensamente direitas pra dizer contesto, contesto e contesto. Agravo e reitero que não tem o menor cabimento.
O Segundo amor é aquele que...

Pensemos.
[cenas do próximo capítulo]

2.3.08

Tempo

a doer e a fazer.

Bem, amor, que te marca?
“A falta de tentar pegar vazio”
É o teu medo, esse medo de voltar,
Pegar passado...

Sempre presente é o mar da tua ilha
Agora o vento que faz levitar os pássaros
Daquele teu filme preferido,
A melhor das sete artes,

Quando aquele Deus teu sinestésico
De silêncio essencial
Na poesia dos meus dias,
Parte de mim.

“Ô João, cadê meus livros?”

Olha minha gaita, minha música...!
Que é meu sorriso metade da alma
(e-a-outra-metade-são-os-olhos)

Saudade dessa fortaleza de raízes que é teu abraço de árvore
Quando pegas o violão a dar-me paz
Em plena estrada: madrugada de segredos

Sonhos? Pertinentes
Futuro? Incerto
Certeza? Mentira, marília.

“A felicidade é nos detalhes”
E no céu a profundidade de um sorvete na pracinha
O segredo é o valor do caráter.
E indispensável mesmo é o abraço
Que torna 3 segundos em 3 minutos.

Quero correr pra sentir a vida
E saber que viver é morrer a cada dia
E que cada dia é uma eternidade
Quando a saudade é um aperto...

E da janela do meu quarto
Cada segundo, avassalador
Não é nada, é só o frio da noite
Na leveza que é o sentir da música

e saiba:
olhar não é saber.

e dizer, evitável.
Que, no fim, toda palavra já não basta.

12.2.08

{texto antigo, mas cabível nas recentes reflexões... :)

e Deus me livre de chegar um dia a dizer "meu amor" desse jeito
publicizante e heteronômico, como se jamais tivéssemos sentido qualquer amor.
Foi-se o tempo, verdade seja dita, que eu sentia calafrios ao ver a banalização
das coisas, mas ainda viro os olhos e o rosto, que sinceramente vezououtra me ofende.
Não, não foi comigo dessa vez, eu li por ali e me ocorreram poucas e boas pra dizer,
mas por falta de legitimidade me limito a pensar no assunto.

Que eu prometa, pelo resto dos meus dias, jamais usar palavra alguma
que eu não sinta.

Que eu não ouça, do mais galante rapaz ou da moça mais bonita, um sorriso
falso uma palavra solta,

que ninguém me destine coisa alguma que eu não mereça
e que eu saiba sempre distinguir o sincero do bonito,

o limite do infinito,

e a verdade nos meus olhos.

--

bom dia. Andiammo! e fechou-me as portas.

11.2.08

a um passarinho

a verdade é que ando assim mesmo
caminhando meio a esmo
pelas ruas da cidade
até quando for verdade
que o coração não é escuro
até quando eu tiver coragem
de pular o alto do muro
do silêncio e da ousadia

que é me dizer
que é me calar

que é te dizer
que é não falar

até quando não se precise dizer nada.



~

21.1.08

És um louco, meu amigo, sempre foste. É que não te lembras nunca das esquinas passadas, e nem precisas que fique eu a remoer lembrança antiga daquelas que, esforçando, decerto lembras. O caso é que tens que parar com isso, Álvaro: já é tempo. Disseste-me observar as vagas, trate então de aprender com elas. Acaso esqueceste nosso tempo de escola? Todos aqueles devaneios de futuro e as leituras de um Hesse, um Pessoa, um José, nós sempre a tentar-nos fortes, e agora de novo inventas como tivesses 15 anos.
Coragem, homem! A vida não é só isso e nem pode sê-lo. Levanta esse corpo e sai dessas mesmas paragens. Se não te bastam as vagas, vai ao Tejo, muda os ares, vem ter comigo em nossa casa, Marta ficará feliz em te rever. Lembro-te que tua afilhada já fez 2 anos e não vieste à festa da pequena, que ficou muito sentida. Cecília te adora e manda abraços.
Presta bastante atenção, amigo: ou tu paras de nonas sinfonias ou viras um ébrio de uma vez por todas. Essa criatura, se é que existe e não é outra de tuas fantasias, não merece esse teu esmorecer.
Faz ouvir a voz da prudência é recomeça-te os caminhos diários, sem passar pelas ruas escusas, faz isso, Álvaro.

Forte abraço,

João.



- ouvindo: O silêncio das estrelas, Lenine.

19.1.08

desatino

Que loucura gigantesca eu ando sendo... Não podes sequer imaginar. Todos os dias a vagar por essas ruas, na busca incessante por aquela janela onde a vi uma vez, uma única vez, e jamais saiu de mim a dar-me espaços de consciência de mim mesmo sem si, aquele corpo, aquela voz forte e fugidia a um só tempo. Há meses persigo, há meses não sou eu, há meses sequer coisa nenhuma: sou só um vago, um vago entre nada e coisa alguma, na procura por aquela de quem sequer sei o nome.
Ouça, ouça aqui a nona sinfonia, e perceba que é aqui, é aqui que eu me perco, e ela nada. Ando a subir e a descer tantas ladeiras coloridas que a mim já não tem cor nenhuma. Invento assunto com os passantes, a dar ousadia às senhoras que passam num cortejo sabe Deus com quem, passei a tomar os desjejuns na tabacaria da Rua do Passo, na esperança desesperada de que talvez pudesse a ninfa por lá passar, quem sabe...
Desde aquela terça-feira inexplicável, em saindo do trabalho lendo-me os últimos papéis por assinar, aquele dia em que tropecei na pedra em falso e tive de abaixar-me por amarrar os sapatos. Foi no levantar-me desse gesto que vi, por uma janela do outro lado da rua, aquela bela a ler preguiçosamente na varanda. A trança volumosa caindo-lhe pelos ombros e o olhar compenetrado, tão sublime, que cautelosamente atravessei a rua, e fiquei embaixo daquela janela a fingir ler-me os papéis. Ouvia, então, a leitura baixa daquela moça, ouvia, ouvia sim os sons melodiosos das palavras sem entender palavra alguma, eram música: eram música...
As músicas, meu amigo, em meus ouvidos estão a deixar-me louco, fora de fuso, perdido, cego, sentido algum há ainda. E o trabalho e a família e os amigos, me perguntas, ora, que dúvida...! Nada eu vejo, nada eu sou, sou só essa espera, todos os dias, naquelas esquinas, naquelas portas.
E assim passaram semanas, e continuam a passar. Permaneço no meu banco, esquerdo do lado da praça Vinte e dois, moro numa casa de frente para o mar, vejo passarem as vagas todas as horas do dia, e nada, nada da princesa fugidia. Amigo, me faça um favor, não contes a ninguém onde moro, só a ela, se a ti vier perguntar.
Ouça, ouça a nona sinfonia, e depois me diga como fazer pra parar de vê-la, que já não posso fechar os olhos sem me morrer de agonia.

Do teu

Álvaro

.

23.12.07

outro castelo

-meu reino por um sorriso, senhora;
-ora, quanta ousadia
-em te querer sorrindo?
- o ousar tratar-me por tu
- dize então como queres que chame, pois não?
- não, quero me chame não, faça o favor
- que maldade, senhorita, se apenas desejo bom dia
- desejado? tenha-o o senhor também

e assim você perde o príncipe, princesa.
quantas músicas caindo pelos dedos,
em teus segredos todos ficando guardados
no canto do quarto,

um dia explodes.
de novo?

22.12.07

ahm?

Eu lá sei de nada, José.
Devia saber?


Nuvens?
que nuvens?
o sol se põe todos os dias dentro de si
pra nascer, amanhã, dentro de mim.


Vi nada, José
Na hora eu fugi da foto
tranquei as chaves no carro

abstração é essa hora, cinco da tarde não me entra,
convenço-me de silêncios e acabou-se

e inda me pedes coerência?
Haja santa
-incrivelmente-
paciência.

18.12.07

Dos súbitos

- escrito assim, subitamente, sem pretensões.




Nas curvas da estrada de mim,
era assim como um silêncio em si bemol, dá pra entender?
E eu abri a mochila, tirei a gaita.
Tirei as fotos, tirei os sons,
coloquei duas flores,
três amores,

e eu,
ali de volta.

Na outra esquina, vai saber
é como me encontrar outra vez

ou a si, de outro ângulo."

11.12.07

Hora íntima.

[vontade de encenar esse poema. se eu tivesse algum talento =P ]

Quem pagará o enterro e as flores
Se eu me morrer de amores?
Quem, dentre amigos, tão amigo
Para estar no caixão comigo?
Quem, em meio ao funeral
Dirá de mim: – Nunca fez mal...
Quem, bêbedo, chorará em voz alta
De não me ter trazido nada?
Quem virá despetalar pétalas
No meu túmulo de poeta?
Quem jogará timidamente
Na terra um grão de semente?
Quem elevará o olhar covarde
Até a estrela da tarde?
Quem me dirá palavras mágicas
Capazes de empalidecer o mármore?
Quem, oculta em véus escuros
Se crucificará nos muros?
Quem, macerada de desgosto
Sorrirá: – Rei morto, rei posto...
Quantas, debruçadas sobre o báratro
Sentirão as dores do parto?
Qual a que, branca de receio
Tocará o botão do seio?
Quem, louca, se jogará de bruços
A soluçar tantos soluços
Que há de despertar receios?
Quantos, os maxilares contraídos
O sangue a pulsar nas cicatrizes
Dirão: – Foi um doido amigo...
Quem, criança, olhando a terra
Ao ver movimentar-se um verme
Observará um ar de critério?
Quem, em circunstância oficial
Há de propor meu pedestal?
Quais os que, vindos da montanha
Terão circunspecção tamanha
Que eu hei de rir branco de cal?
Qual a que, o rosto sulcado de vento
Lançará um punhado de sal
Na minha cova de cimento?
Quem cantará canções de amigo
No dia do meu funeral?
Qual a que não estará presente
Por motivo circunstancial?
Quem cravará no seio duro
Uma lâmina enferrujada?
Quem, em seu verbo inconsútil
Há de orar: – Deus o tenha em sua guarda.
Qual o amigo que a sós consigo
Pensará: – Não há de ser nada...
Quem será a estranha figura
A um tronco de árvore encostada
Com um olhar frio e um ar de dúvida?
Quem se abraçará comigo
Que terá de ser arrancada?
Quem vai pagar o enterro e as flores
Se eu me morrer de amores?


[Vinicius de Moraes]




A Hilda pegou também :P

9.12.07

Encontrei a velha carta escondida. Mal escondida, decerto, que lembro tê-la escondido pra ser ele a achar, quando voltasse...Não voltou.
Longos minutos olhando, sem ter coragem, melhor nem ler. Não leio.
Faço pior: pego o telefone.
Ligo?

ô,babe, faça isso não, vai doer.

e escondo de novo, até o silêncio das cartas manchadas,
marcadas,
cindidas,

direi sim quando for a hora.
Agora?

O destino brinca, senhores, mas hoje ele não me pega.

23.6.07

Literatura erótica?!

I
Toma-me. A tua boca de linho sobre a minha boca
Austera. Toma-me AGORA, ANTES
Antes que a carnadura se desfaça em sangue, antes
Da morte, amor, da minha morte, toma-me
Crava a tua mão, respira meu sopro, deglute
Em cadência minha escura agonia.

Tempo do corpo este tempo, da fome
Do de dentro. Corpo se conhecendo, lento,
Um sol de diamante alimentando o ventre,
O leite da tua carne, a minha
Fugidia.
E sobre nós este tempo futuro urdindo
Urdindo a grande teia. Sobre nós a vida
A vida se derramando. Cíclica. Escorrendo.

Te descobres vivo sob um jogo novo.
Te ordenas. E eu deliquescida: amor, amor,
Antes do muro, antes da terra, devo
Devo gritar a minha palavra, uma encantada
Ilharga
Na cálida textura de um rochedo. Devo gritar
Digo para mim mesma. Mas ao teu lado me estendo
Imensa. De púrpura. De prata. De delicadeza.
[Hilda Hilst]

Tenho conversado ardentemente sobre o tema com os amigos no Por Mais Leitura (pra quem não sabe o tema do mês é Literatura e Sexo), e ardentemente discordamos de várias das arestas do tema. Felizmente sempre tem um ponto de intercessão, e o ponto dialético é a Hilda Hilst :P
Pra quem não leu, tem que ler. e quem já leu, ler mais, porque a mulher tem das maiores bibliografias - e é realmente a minha preferida e uma espécie de ponte entre o dito "lírico" e o "erótico", apesar de eu mesma não gostar de fazer essa secção.

Aqui um texto já escrito pro blog do PML, sobre isso, porque permanece o tema, e eu gosto muito dessas polêmicas:

A Mulher para além do Sexo.
Que "Mulher", vocês me perguntariam, e eu diria: todas, talvez. Mas escolhi aqui uma, a minha preferida, vamos dizer, e preferida também porque muito me representa:Hilda Hilst aqui já bem apresentada pelo Ary (ver post "O caderno rosa de Lori Lamby"), mas que continua sendo minha amiga de cabeceira, sobretudo e sobre todos.Mas por quê, então, esse título de "a Mulher para além do Sexo"? Nada mais simbólico nessa temática de Literatura e Sexo, permeando entrementes o Erotismo, nada mais simbólico do que falar de mulher, e com aquela que, na minha opinião, é a Mulher das mulheres.Falando especificamente dela, a Hilda, que foi durante toda a vida vista como uma "escritora erótica", e nada que a irritasse mais. Não por renegar o erotismo de seus versos, mas por achar esse rótulo demais limitado - e, no fim das contas, O QUE É LITERATURA ERÓTICA?
Devo dizer que sou uma leiga. E, aliás, toda vez que leio algo que pra mim soa erótico explicíto, de cara já desgosto, e não é por pudor excessivo: é que aquele tipo de palavras (senhor, nada pior que uma "buceta" no meio do parágrafo :P), aquela linguagem bordelística, sinceramente em nada me atrai. E aí me coloco não mais como Marília, mas como mulher lendo essas linhas (e vamos abstrair de coisas como "pudor" ou "criação paternalista", sim?): isso sinceramente não me toca. E a palavra no meio do texto podia ser pinto, pênis, pau, qualquer coisa, isso nunca me remete sequer a imagens, porque eu pulo essas linhas.E então deixa logo eu dizer: pra mim Literatura e Sexo não é só literatura erótica. E aqui entendamos literatura "erótica" como aquelas coisas em que o sexo está explícito, o ato em si, as terminologias anatômicas, anacrônicas e até vulgares. Eu gosto de ler Hilda Hilst quando ela fala de Sexo. E por quê? Porque ela sabe falar. Não vou aqui defender que ela saiba falar PORQUE é mulher. Mas de todas as coisas no mundo que eu leio sobre Sexo, sempre me atraem mais as escritas por mulheres. Tem o fator também de que a maioria dos autores conhecidos são realmente homens, inclusive nessa temática, e sempre o sexo, o ato, o coito, fica descrito pelas mãos de um homem: a visão da mulher, também, pelos olhos de um homem. E ouso pensar que é porque SOU mulher, é claro. Minha identificação vai por quem me representa: e olhe que já vi muitos autores homens representarem muito bem o universo feminino - mas sem dúvidas ninguém jamais bateu a Hilda.
E como lá em cima postei um tipo de poema, dos dela, aqui vai outro bem diverso.
Digam aí. Se fosse pra escolher um poema pra ler de novo, qual seria? :)
O de cima ou esse último?
"Que este amor não me cegue nem me siga.
E de mim mesma nunca se aperceba.
Que me exclua do estar sendo perseguida
E do tormento
De só por ele me saber estar sendo.
Que o olhar não se perca nas tulipas
Pois formas tão perfeitas de beleza
Vêm do fulgor das trevas.
E o meu Senhor habita o rutilante escuro
De um suposto de heras em alto muro.
Que este amor só me faça descontente
E farta de fadigas. E de fragilidades tantas
Eu me faça pequena. E diminuta e tenra
Como só soem ser aranhas e formigas.
Que este amor só me veja de partida."
?

1.6.07

Na cantina - parte 1.

- Olhe em volta.
Ele o diz, e não é um sonho só. Sonho que se sonha só, eu sei, é sonho,mas o sonho junto... já nem sei.
- Olhe em volta, ele continua.
E o que ele quis dizer, perfeitamente, eu o sabia, mas não ia dizer, deixei-o a falar. e falar e falar. Sobre o desespero do mundo, o agônico do homem, a cultura quase perdida,os problemas sociais: tudo isso, menina, é apenas a ponta.Ele falava como quem não dá fim. Nem as palavras nem a si, tudo fica suspenso, menina,veja você que o mundo, ah, o mundo, "o mundo não vale o mundo, meu bem".Saberia ele estar a citar Drummond? Falava muito dos alemães.

O que eu sabia, devo dizer, é que por isso senti eu também saber, mas já não mais do mesmo jeito.Aquela inquietude a sobrevir da calmaria, quem já não havia, por segundos,angustiado a vida inteira?Nietzche tem lá sua razão, Thomas Mann também, e sobretudo Hermann Hesse, mas eu ainda fico com o Drummond e o velho estar-no-mundo.

O que dói, meu amigo, é o estar-no-mundo.E aquela coerência de que eu te falava, e tu me dizias um conceito outro a dizer a mesma coisa,é isso que eu vejo olhando em volta, a exata falta dela.

Dói quem não tem sequer a coerência. Não sei se aos 19 te posso dizer que essa é a necessidade básica, mas te digo com tranquilidade que nunca vi ninguém estarem paz sem ter aquela. A bendita (ou maldita, tu bem falas) coerência.
Dou-te apenas um outro conselho ao vento, muito embora saibas que não virás por cáa ler-me: as teorias, meu amigo, de nada valem sem a prática. Não é preciso ler Kant pra saber. ;)

31.5.07

[poema di minuto]

[nascido após ler algo muito bonito na casa da Antropóloga em marte ;) meus cumprimentos agradecidos por ter-me nascido o poema hehehe ingênuo, porém sincero, de uma lembrança há muito descansada =]



eu não era nada, não.
e ainda digo que não queria ser nada.
vês que hoje algo sou, por obra tua, obra minha e do destino
e ainda eras um menino quando tudo era começo.
hoje eu meio, tu nem sei.

mas sabes que aquele átimo no interlúdio de nós mesmos
aquele vil segundo em que tanto nos tocamos e nos fomos
embora de cada um de nós:
naquele tão momento é que eu começo,
feliz ou não, a ser o meu início, meu idílio, meu senão.

senão nada disso houvera sido, ex-amor.

e aquele que eu dizia ex-amor, hoje que mais posso ver
senão infindo, indizível indelével, vez que jamais me deixaria?
não me deixaria, querido amigo,
porque eu jamais te expulsaria

e tu jamais sem mim vivia.

13.5.07

Insônia.

Percebeu que estava sentado na mesa, mas não era isso o que queria. Queria talvez ir embora, esquecer-se dos gritos em volta, apagar os choros calados.

Queria talvez estar ébrio, ébrio e bem longe. Sem a raiva das injúrias ouvidas, sem o desejo de não-ser. Mas não era tão simples. Viver não era tão simples. Infelizmente, ele sabia. Sabia, decerto, de coisas demais e pessoas de menos. Ou seria o contrário? Ébrio, ébrio e bem longe.
O ruído baixo do vento a sussurrar na janela irritava-o, tanto quanto as conversas estapafúrdias na sala. Tudo parecendo irreal, sem que soubesse explicar. No fim, podia ser apenas real o suficiente pra sufocar bons julgamentos.
E é claro que a realidade aplaca os sentidos e obstrui um tanto a razão. Ainda que pensamentos sensatos não se devam de todo à abstração, dificilmente nasceriam em uma calçada movimentada repleta de rostos sem dono e de buzinas. Os grandes filósofos deviam (devem?) ser aqueles que, mesmo na realidade, guardavam para si os sentidos e a própria sensatez.
Sensatez no abstrato. Pensava nisso de vez em quando, mas os burburinhos do tudo e do nada acabavam-lhe com a paciência. Um contrasenso, era isso o que tudo era.
Curioso era que hoje tivesse compromissos. Sim, tinha. No entanto, sem fixos horários, deitara-se e lera um seu mestre. O acaso - do ocaso - não deixara que avançasse as páginas. Relutou, resignou, rabiscou.
Restrito e rendido, calou-se ao escrever. E o tempo, esse passava só. Ficava ele, ficavam nós. Queria apenas estar bem longe, sem mais saber seu nome e sem ter hora pra voltar. Podia? Sabia lá, talvez um dia tentasse.
Escrevia como quem passa, como insistia o Pessoa, e, logo em seguida, já era o que fica. Ficava onde - é que ele não sabia. Os gritos ainda ecoavam, apesar de todos já idos longe, gritos&gritos, uma estupidez, sempre pensou, por que não podiam resolver as mediocridades com olhares? Quiçá desenhos. Inventassem um modo qualquer, contanto que outro, algum que não o deixasse louco, que não o trancasse no quarto, esse cessar de mundo. Terá o mundo cessado? Ou foi apenas um calar momentâneo?
As paredes são como ele. Às vezes as paredes o comem. Verdade maior, no entanto, é dizer que ele é que come: come as paredes, o tempo, os livros e até a si, autofágico, verborrágico, mas sobretudo sozinho. Devia ter um sobretudo. Pra quê?! Pra morrer de calor mais ainda. Pensa consigo, rindo um horror, que até as ironias são amarelas. Acha que o amarelo o persegue e desiste de pensar nisso, dá um terror de dentro, e chega, chega tudo, passa por eternos oscilares. Quente, suor muito. “Mamãe dizia que era o calor”.
Transpira-se muito nessa ilha. Mas não era floresta? Já não sabe onde mora. Não sabe. E lá se vão longos minutos de silêncio interno, um desejo imenso de sair daquilo que nem sabe nomear, e uma inércia talvez maior de sequer mover-se. Pra que mover-se, se talvez os gritos voltem?
Achava que se perdia e parava ao continuar. Que tudo à sua volta acabava por diluí-lo, mas era hora. Hora de não saber. Hora de se arrumar, hora de ir embora.
Talvez fosse mesmo apenas mais um. Talvez isso sequer importasse. O tempo, esse sim, sempre passava. Não devia ele, tão bobo em seus papéis, parar? Parar pra onde, parar pra quê? Tolice, devia deixar de ser tolo.
O relógio bate. Que horas?! “Tantas...” Havia de ser mais forte, conciso e espontâneo. Duvidavam? Veriam. O dia hoje será bom, diz consigo, será bom e eu serei eu mesmo.
Talvez seja hoje a coroação. “Eu, rei de mim?” Engraçado.

6.5.07

Um jazz - ao sr. Bechet tocando.

Deslizou passo a passo na calçada ao som do jazz, sabia que devia chegar ao teatro. Haviam marcado, o show era cedo e dessa vez tão, mas tão importante, que tivera medo. Arrumou o violoncelo, afinado a custo, e não resistiu a uns goles e copos: bebeu pra relaxar e acabou indo naquele estado. Deslizando passo a passo, sabendo já de antemão do atraso óbvio, talvez pusesse tudo a perder. Mas não: ligaria e diria “façam sem mim”. Claro. E assim perdia o emprego.
Nervoso, bebia mais. E o jazz, meu Deus, o jazz era o delírio, queria tocar a peça o quanto antes, mas e se errasse algo? Estariam todos lá. Pensava, no entanto, que a luz, aquela luz, sempre o cegava. Que diferença, não via ninguém, e aí tinha um risco: se perdesse a marcação, não veria mais nada, nenhum dos companheiros. Em seguida, pensava que bobagem, “um músico experiente, tantos espetáculos, ensaios todos os dias, não tem nada a dar errado”.
E deslizava uns minutos confiante, até perceber que não sabia mais aonde ia. A mulher, antes de deixá-lo noite passada, sentenciara exatamente isso, que ele, o grande músico, já não sabia mais. Aonde ia, o que queria, o que dizer. Frases cruéis ela dissera, ele fingindo não ouvir. Antes ainda de fechar a porta, ela arriscara uma frase de efeito (e, ele observou, “mais sem jeito que a porta”),
- Aprenda a perder pra não perder a si.
Continuou fingindo até dormir. E dormiu sem sonhos.
Acordou sem a mulher do lado e, riu, “sem a mulher, mas com uma senhora ressaca”. Como de hábito, ainda sem comer, foi tocar. Sabia que a mulher (como a chamaria agora? Ex?) tinha razão: ele emagrecia progressivamente e só as olheiras prosperavam. Nem a barba lhe crescia mais, os cabelos caíam ralos. Apesar de bom músico, todos sabiam, não recebia mais propostas nem idéias bonitas dos amigos. Eles tinham medo das constantes neuroses do artista.
Neurose, repetia, fora isso o que dissera a analista. E grande coisa, pensava, naquela roupa sufocada, louca era ela, julgando por detrás dos oclinhos meio mundo a desocupada... E fora embora, ignorando mulher, analista, remédios e recomendações, tinha mesmo um grande espetáculo a montar. Tinha? Há quase um ano sem apresentar-se, mas ninguém precisava saber.
Pensava nisso esparsamente ao deslizar. Vontade de deslizar-lhe os dedos pelas cordas que nem Charlie Parker domava o sopro, ah, o Bird! Quem dera ter tocado com ele, sonho antigo. “Morreu dois anos antes de eu nascer, devia ter me esperado”.
Bessie! Meu Deus, estava ficando louco? Tocavam Bessie na esquina, então o mundo tinha jeito (e o som da esquina, num posto, era qualquer coisa menos jazz). Um mendigo pediu dinheiro, ele sorriu e, estando tonto, sentou-se de qualquer jeito, tomando só o cuidado com o querido amigo – a caixa tinha que estar intacta, guardava-lhe a alma.
- Você ouve, ouve?
O mendigo não responde, se não tem dinheiro nem comida, ele pensa, “sai do meu caminho, ô seu doido”. Doido, pensa ainda, pra estar de terno e sentado na lama. E, em seguida, “se é doido...” e já calcula as vantagens.
- Escuta, você sabe onde fica aquele teatro?
- Tem teatro aqui não, meu chapa.
- Não?!
Mas ele já sabia. Não queria mais chegar, queria só acompanhar a Bessie. Tonto, sim; doido, não. Se pensavam que ele não podia, veriam já. Ele, o grande, levantando da calçada e subindo ao palco.
- Ora vejam. Nunca vi público maior, perdi até o medo.

O mendigo ria do homem falando sozinho, ainda mais que descobrira com ele uma garrafa e aquela já era sua – ao menos isso.E o senhor músico, diante do público, sacou da sua arma, ajeitou a flor na lapela, um “Boa noite, Bessie”, pôs-se na melhor posição que pôde e tocou finalmente a sua música. Sua última música.

25.4.07

Entre os breves espaços do tempo não há
ninguém
ousando viver o tempo
seguindo ao som do vento
sabendo que, a todo tempo,
o tempo pode acabar.

na sua janela não era nada, meu bem
apenas o nosso espelho,
partido talvez no meio
- "parto, já tendo me partido"

é aí que te digo
da brevidade do tempo
necessidade de anseio
viver do começo ao meio
- "e o final que venha sozinho",

vez que os breves espaços de vento,
confesso

perdi no mei do caminho.

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