23.12.07

outro castelo

-meu reino por um sorriso, senhora;
-ora, quanta ousadia
-em te querer sorrindo?
- o ousar tratar-me por tu
- dize então como queres que chame, pois não?
- não, quero me chame não, faça o favor
- que maldade, senhorita, se apenas desejo bom dia
- desejado? tenha-o o senhor também

e assim você perde o príncipe, princesa.
quantas músicas caindo pelos dedos,
em teus segredos todos ficando guardados
no canto do quarto,

um dia explodes.
de novo?

22.12.07

ahm?

Eu lá sei de nada, José.
Devia saber?


Nuvens?
que nuvens?
o sol se põe todos os dias dentro de si
pra nascer, amanhã, dentro de mim.


Vi nada, José
Na hora eu fugi da foto
tranquei as chaves no carro

abstração é essa hora, cinco da tarde não me entra,
convenço-me de silêncios e acabou-se

e inda me pedes coerência?
Haja santa
-incrivelmente-
paciência.

18.12.07

Dos súbitos

- escrito assim, subitamente, sem pretensões.




Nas curvas da estrada de mim,
era assim como um silêncio em si bemol, dá pra entender?
E eu abri a mochila, tirei a gaita.
Tirei as fotos, tirei os sons,
coloquei duas flores,
três amores,

e eu,
ali de volta.

Na outra esquina, vai saber
é como me encontrar outra vez

ou a si, de outro ângulo."

11.12.07

Hora íntima.

[vontade de encenar esse poema. se eu tivesse algum talento =P ]

Quem pagará o enterro e as flores
Se eu me morrer de amores?
Quem, dentre amigos, tão amigo
Para estar no caixão comigo?
Quem, em meio ao funeral
Dirá de mim: – Nunca fez mal...
Quem, bêbedo, chorará em voz alta
De não me ter trazido nada?
Quem virá despetalar pétalas
No meu túmulo de poeta?
Quem jogará timidamente
Na terra um grão de semente?
Quem elevará o olhar covarde
Até a estrela da tarde?
Quem me dirá palavras mágicas
Capazes de empalidecer o mármore?
Quem, oculta em véus escuros
Se crucificará nos muros?
Quem, macerada de desgosto
Sorrirá: – Rei morto, rei posto...
Quantas, debruçadas sobre o báratro
Sentirão as dores do parto?
Qual a que, branca de receio
Tocará o botão do seio?
Quem, louca, se jogará de bruços
A soluçar tantos soluços
Que há de despertar receios?
Quantos, os maxilares contraídos
O sangue a pulsar nas cicatrizes
Dirão: – Foi um doido amigo...
Quem, criança, olhando a terra
Ao ver movimentar-se um verme
Observará um ar de critério?
Quem, em circunstância oficial
Há de propor meu pedestal?
Quais os que, vindos da montanha
Terão circunspecção tamanha
Que eu hei de rir branco de cal?
Qual a que, o rosto sulcado de vento
Lançará um punhado de sal
Na minha cova de cimento?
Quem cantará canções de amigo
No dia do meu funeral?
Qual a que não estará presente
Por motivo circunstancial?
Quem cravará no seio duro
Uma lâmina enferrujada?
Quem, em seu verbo inconsútil
Há de orar: – Deus o tenha em sua guarda.
Qual o amigo que a sós consigo
Pensará: – Não há de ser nada...
Quem será a estranha figura
A um tronco de árvore encostada
Com um olhar frio e um ar de dúvida?
Quem se abraçará comigo
Que terá de ser arrancada?
Quem vai pagar o enterro e as flores
Se eu me morrer de amores?


[Vinicius de Moraes]




A Hilda pegou também :P

9.12.07

Encontrei a velha carta escondida. Mal escondida, decerto, que lembro tê-la escondido pra ser ele a achar, quando voltasse...Não voltou.
Longos minutos olhando, sem ter coragem, melhor nem ler. Não leio.
Faço pior: pego o telefone.
Ligo?

ô,babe, faça isso não, vai doer.

e escondo de novo, até o silêncio das cartas manchadas,
marcadas,
cindidas,

direi sim quando for a hora.
Agora?

O destino brinca, senhores, mas hoje ele não me pega.